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The Jazz Ear: uma análise crítica

Segundo Gustavo Kalil, "a idéia central do livro é muito interessante: saber dos próprios músicos, o que os influenciou e como a música acontece. As análises que os músicos fazem é minuciosa e a diversidade de escolhas também é bastante interessante. Ouve-se Coltrane, Bach, Parker, Aretha Franklin e Ravel".

26/01/2010 - Gustavo Kalil

Quando ouvimos um disco, percebemos o quanto a música pode nos dizer. As emoções se afloram, o ouvido filtra e nossa mente absorve todos os sons possíveis. Durante duas horas, o guitarrista Pat Metheny ouve e fala sobre música. Escolhe alguns discos aleatoriamente e se concentra em tudo o que a música pode transmitir. Dá uma pausa para um breve lanche, mas retoma em seguida para dar continuidade as audições. Escolhe a música If You Could See Me Now do disco Smokin´ at the Half Note, gravado em 1965 com o trio de Wynton Kelly e o guitarrista Wes Montgomery. Descreve minuciosamente o solo. Os recursos técnicos utilizados, as variações melódicas e as nuances de intensidade são reveladas em mais de uma audição. Enquanto explica tudo sobre a música, continua ouvindo e mostra qualidades da banda. As frases caminham para o final do solo e Wes adiciona tensão à sua execução. A ideia do Blues está presente e a banda está tocando mais forte. Ele então inicia uma nova ideia para o desfecho final. Sua apurada técnica dá a dimensão da qualidade de seu solo.

No disco de Tom Jobim, Pat Metheny ouve Passarim. Sorri quando a música começa e diz que não é apenas um tema. É uma composição na acepção do termo. A introdução é com um grupo vocal com membros da família Jobim. Mostra as mudanças de tonalidade e as variações rítmicas. Da Bossa Nova para a valsa. Os movimentos harmônicos são enfatizados, mostrando a riqueza da melodia. Tudo isso em três minutos e meio, tempo suficiente para fazer uma conexão entre o disco e como o grande maestro influenciou sua carreira.

O crítico de Jazz do jornal New York Times, Ben Ratliff, passou mais de dois anos entrevistando grandes nomes do Jazz. Resolveu então, sentar ao lado deles para ouvir música. Mas não só isso. Queria saber como tal gravação teve influência decisiva para determinado artista. Foi com essa nova abordagem que escreveu The Jazz Ear. O livro preenche um hiato no mercado editorial no que tange ao conhecimento mais aprofundado do artista e na sua compreensão sobre Jazz. As quinze conversas apresentadas consistem em entender os músicos pela música que os move, colocando num plano secundário a música que criaram. Ratliff diz: Ouvir é fundamental para criar uma amizade genuína com o Jazz. A idéia central era que, os músicos se revelariam ao falar sobre a música dos outros, muito mais do que sua própria história musical.

Numa dessas conversas, Sonny Rollins ouve Billie Holiday cantando Lover Man. Ele diz: s pessoas esperam que você toque exatamente como gravou. Eu nunca toco da mesma forma uma mesma música. Billie estava tentando fazer isso, mas percebia que era um problema. No disco Lady in Satin percebe-se que sua voz havia perdido qualidade. Para Rollins, o chamado tempo no Jazz é o elemento primordial. Expressa liberdade. O músico deve saber conviver com ele. ocê não precisa tocar tudo no tempo. Deve saber modificá-lo, dizia. Suas declarações caminhavam no sentido oposto aos conceitos acadêmicos, onde o Jazz se cercava de rígidos conceitos.

Ornette Coleman escolheu alguns discos que estavam próximos, não se importando com rótulos. Apenas queria ouvir e contar histórias. Sua filosofia se baseava no confronto entre ideias e estilos. “O que importa não é que música você está tocando, mas a ideia principal dentro do contexto musical”. Escolheu dentre as gravações, Cheryl de Charlie Parker e uma gravação de 1916 de um cantor judeu chamado Josef Rosenblatt.

A música brasileira também é lembrada pela Pianista e arranjadora Maria Schneider na música A Maldade Não Tem Fim do álbum elha Guarda da Portela. Mostra a interação entre trombone, cavaquinho e bandolim. Sua ligação com a música brasileira se aprofunda com a visita a quadra da Mangueira, à convite do músico Paulo Moura.

Quando pensamos sobre os músicos e suas músicas, pensamos essencialmente no que eles escrevem, tocam e gravam. Ratliff resolveu colocar algumas questões importantes para a realização do livro: O que esses músicos ouvem? Quais suas influências? O que eles estão pensando e ouvindo enquanto ouvem a música? A curiosidade deve nos levar para outras direções. Ou melhor, outras audições. O autor lista alguns discos importantes como sugestão. Então: Vamos aumentar nosso repertório?

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