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Dom Angelo: O Jazz que vem do Nordeste

A rica musicalidade de Pernambuco abre espaço para uma nova lavra: o jazz. E nela surge um raro talento, o do guitarrista Dom Angelo. Nessa entrevista, ele nos conta como se deu o seu encontro com o jazz, a sua carreira e principalmente entra em detalhes sobre seu último trabalho discográfico, "Porto". Uma obra de fôlego e criatividade que une Pernambuco a Portugal pela linha imaginária do jazz.

Dom Angelo, João Mortágua, Daniel Dias, Marcel Pascual Royo, Carl Minnemann e Filipe Monteiro. (foto: Catarina Thomaz)

13/01/2016 - Wilson Garzon

Wilson Garzon - Você veio de uma família musical? A guitarra foi a primeira escolha?
Dom Angelo - Minha família não é de músicos, em nenhuma geração, mas é uma família altamente musical. Minha avó e minha mãe são pessoas bastante afinadas. Minha mãe até “arranhava" no violão. Meu pai é um grande apreciador da música tradicional europeia (erudita) e também simpatizante do Jazz Clássico como Louis, Chet, Billie, Sinatra dentre outros. Apesar de eu ter passado pela flauta doce e pelo teclado no processo de iniciação musical ainda criança, quando decidi de fato estudar um instrumento, a guitarra foi minha única escolha.

WG - Como foi o teu percurso musical até encontrar o jazz? E como se deu esse encontro?
DA - Minhas primeiras atividades musicais foram bastante versáteis. Passei (como quase todo adolescente de classe média) pelo rock e pelo punk. Depois comecei a estudar a sério o instrumento por transcrições dos discos do Led Zeppelin, Pink Floyd, The Doors, Stevie Ray Vaughan, Dire Straits, etc. Ao ingressar no curso de Licenciatura em Música na UFPE, tive meus primeiros contatos com composições para violão solo do João Pernambuco, do Léo Brouwer, Dilermando Reis, Villa-Lobos, ao mesmo tempo que estudava coisas em casa do Carcassi, Tárrega, Sor, Aguado, Giuliani, etc. Até cheguei a lançar um EP digital com composições minhas para violão solo.

Ainda na universidade, a partir das disciplinas de prática de conjunto, fui entrando em contato com o Choro, com a Bossa e com a MPB em geral. Após atividades em bandas como a Mula Manca & a Fabulosa Figura, que prezava por um minimalismo elegante nos arranjos e posteriormente a banda de releituras Seu Chico, apenas de composições de Chico Buarque, foi apenas um pulo até chegar no Jazz. Até porque as harmonias do Chico são tão elaboradas quanto as mais complexas harmonias jazzísticas. Sem falar das coisas do Tom Jobim.

WG - Que músicos foram fundamentais na sua formação e estilo musicais?
DA - Nesse processo jazzístico, tive as fases dos músicos que me influenciavam mais. E não necessariamente precisavam ser guitarristas. Bom...tive minha fase Miles Davis, minha fase Wes Montgomery, minha fase Dave Brubeck, John Coltrane, Thelonious Monk, etc. Ultimamente tenho sido altamente influenciado pela maneira de tocar guitarra do Bill Frisell. Também tenho ouvido bastante o Kenny Wheeler, o Ornette Coleman, redescobrindo coisas do Charlie Parker e investigando a obra do Moacir Santos, do Tom Jobim, do Egberto Gismonti, do Hermeto Pascoal e de outros pertencentes ao Jazz Brasileiro.

WG - Em 2010, você lança "Dom Angelo Jazz Combo". Qual foi a proposta desse trabalho? E quanto à escolha do repertório e dos músicos?
DA - O disco foi gravado entre amigos. A escolha foi muito natural. E este disco carimbou meu passaporte definitivo para o mundo do Jazz. No mais, pelo pioneirismo deste trabalho em Pernambuco, como um dos primeiros (até suspeito que tenha sido o primeiro) discos mercadológicos de standards de Jazz do estado, considero este álbum quase como uma “movimentação educativa” para o público ouvinte. Tanto que no álbum encontramos temas do bebop, do cool, do trad, do latin e um autoral (chama-se “27 de setembro”). O povo brasileiro precisa “aprender” mais a ouvir música instrumental.

WG - Já em 2015, você lança seu segundo trabalho, "Porto". Quando surgiu a ideia de ir para Portugal já estava embutido o projeto de gravar o CD? Os músicos são todos de Porto?
DA - Minha ida para Portugal foi com o intuito de desenvolver minhas habilidades musicais e minhas competências como pesquisador, educador e acadêmico. Portanto cursei o mestrado em performance em jazz pela Universidade de Aveiro e encontro-me com o doutorado em andamento por esta mesma instituição.

A ideia de gravar um disco de autorais surgiu mesmo da necessidade de publicar meus próprios temas. Curiosamente aconteceu numa altura em que eu estava amadurecendo o objeto de estudo da minha tese de doutorado, que busca investigar as características do Jazz Brasileiro. A proposta de gravar um disco e inseri-lo como atividade na tese caiu como uma “luva” para os possíveis resultados das análises sobre a linguagem e o discurso musical do Brazilian Jazz. Os músicos que participaram do disco são portugueses radicados* no centro-norte do país e um espanhol da Catalunha**. Mas todos, naquele momento, residiam na cidade do Porto, sim.

WG - As sete composições que compõem o repertório de "Porto" são de sua autoria. Conte-nos um pouco sobre cada uma delas, em relação ao seu conceito e época em que foi composta.
DA - Basicamente é um disco de homenagens. A primeira faixa do disco intitulada “Porto”, além da homenagem a cidade, foi uma balada composta num dos invernos frios que passeio em Portugal. A faixa dois, “Sassá” é uma homenagem a minha amada esposa. A faixa três, “Baião D’Aveiro” homenageia a cidade que me acolheu como estudante e pelas ótimas amizades que por lá fiz. A faixa quatro, “Stillness” refere-se a minha busca espiritual. A faixa cinco, “Vizela” é uma homenagem esta pequena cidade que tive a oportunidade de trabalhar como professor nesses 4 anos de Portugal. A faixa seis, “Flor e Vida” é uma homenagem a minhas irmãs. E a faixa sete, “Awareness” refere-se a um pequeno despertar desta consciência que vos fala na qual o Jazz faz parte.

WG - Você ficou satisfeito com o lançamento e a repercussão crítica?
DA - A repercussão crítica tem sido incrível. Todos que ouvem o disco, gostam muito. Mesmo aqueles que não tem senso estético apreciativo pro Jazz, tem me elogiado pelo teor erudito das composições e das interpretações dos músicos. Por outro lado, o lançamento foi fraco, apesar do bom trabalho de distribuição feito pela Tratore aqui no Brasil. Mas se o mercado independente é complicado, imagina para música instrumental e ainda mais para o Jazz autoral? Mas o disco não foi feito com um fim. Foi feito porque foi feito. E estou muito feliz com ele.

WG - Como você analisa o atual cenário jazzístico em Pernambuco e no Nordeste? Que nomes e festivais você destacaria?
DA - Entendo que Pernambuco vive seu melhor momento de sempre relacionado com o Jazz. Talvez a tecnologia (nomeadamente a internet) fora um dos motivos impulsionadores para a difusão deste gênero musical entre os artistas. O acesso as obras clássicas (discos e shows), a aquisição de materiais didáticos, songbooks e métodos, ajudam os músicos a desenvolverem conceptualmente a interpretação e a linguagem desse estilo. O fato é que nomes como Spok (e sua Spok Frevo Orquestra), Luciano Magno, Vitor Araújo, Areia e Grupo de Música Aberta, Saracotia, Dom Angelo, Wallace Seixas, Arthur Philipe, Thiago Albuquerque, Marquinhos Diniz Trio, Daniel Podsk, Mojav Duo, Nebulosa Quinteto (liderada pelo baixista e excepcional crítico de Jazz Bruno Vitorino), etc. Tem levado a música instrumental de Pernambuco relacionada com o Jazz a uma projeção nunca vista antes no estado.

Além de todos os músicos que estão buscando se especializar e adquirir conhecimento sobre o Jazz fora do país, para trazerem a didática e as informações nas quais os mesmos não tiveram acesso outrora no Brasil. Produtores como Giovanni Papaleo com seus Garanhuns Jazz Festival (agora Gravatá) e o Porto Jazz, Antônio Capucho com seu Choro-Jazz, Alex Corezzi com o Recife Jazz Festival, André Frank com os trabalhos ligados ao governo e as prefeituras, e ainda o Fest Bossa & Jazz, a MIMO de Olinda (teve sua edição 2015 cancelada), dentre outros, tem movimentado bastante a cultura do Jazz, Blues e da música instrumental em geral nessa região do país.

WG - Quais são seus próximos projetos?
DA - Escrever minha tese de doutorado, hoje, é meu trabalho cotidiano. Até porque sou bolsista Capes. Torna-se mesmo um ofício. Mas ideias não faltam. Tenho até composições para um novo disco. Mas não faço muitas projeções ou planos para o futuro. Vou apenas observando, como mero expectador, o desenrolar do “filme” da minha vida e fazendo o que tem que ser feito, passo a passo.

* João Mortágua (sax), Daniel Dias (trombone), Carl Minnemann (baixo) e Filipe Monteiro (bateria).
** Marcel Pascual Royo (vibrafone).



LINKS DE ÁUDIO

Spotify - Porto

Dom Angelo - Sassá

Dom Angelo - Baião D'Aveiro

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Solar - Dom Angelo & Bruno Rodrigues

Monk's Mood - Dom Angelo

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