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Matías Suarez: a nova geração do jazz portenho

Em maio, estava em Buenos Aires para assistir ao festival voltado para a vanguarda do jazz portenho, na Rosetti 722 em Chacarita. Foi lá que conheci, entre outros jovens talentos, Matías Suarez e sua guitarra apresentando uma música instigadora e plena de criatividade. Nessa entrevista, Matías abre o verbo e nos conta a sua trajetória musical, sobre o seu cd Tangram (Kuai Music) e nos aponta suas próximas propostas.

14/09/2015 - Wilson Garzon

Wilson Garzon - A guitarra sempre foi a sua primeira escolha? Quando e como foi que o jazz surgiu na sua vida?
Matías Suarez - Antes, eu tive contato com o piano e flauta na escola primária, mas não aprofundei muito neles em minha escola; como na maioria dos alunos, a música não é algo para ser levado a sério como matemática ou física. Mas, por sorte, em minha casa, escutava muita música. O primeiro instrumento que aprendi a tocar guitarra; minha mãe foi a grande incentivadora e sigo até hoje, aprendendo.

A primeira guitarra que eu tive, tinha aproximadamente 10 anos e comecei a estudar numa oficina de música que ocorria na escola quando terminavam as aulas obrigatórias. Meu interesse pelo jazz veio mais tarde, quando entrei aos 18 anos na escola ITMC, onde lecionava o guitarrista Patricio Carpossi, com quem também comecei a ter aulas particulares.

WG - Que guitarristas e músicos foram importantes na sua formação musical?
MS - Toda a música que eu escutei foi sempre importante. Em relação ao estudo do instrumento, sem dúvida 'Pato' Carposi, porque foi o meu primeiro contato com o estudo da música improvisada. Depois vieram muitos músicos importantes para mim, como os professores que tive na cadeira de Jazz no Conservatório Manuel de Falla, para onde eu fui depois de finalizar meus estudos no ITMC.

A Argentina está cheia de músicos incríveis e usando o Youtube eu posso estar em Nova York. Isso quer dizer que as influências e as ideias vêm o tempo todo de todos os lados. Mas você tem que ter tempo para ficar a sós com o instrumento (que é o mais importante) e também ouvir música ao vivo (porque o youtube só capta um pouco de magia); mas não há nada como estar lá presente. Também há as influências de atividades que não estão diretamente relacionadas com a música, como a literatura, p. ex.

WG - Em 2014 você lançou Tangram, seu primeiro trabalho solo. Qual foi o conceito desse cd?
MS - O grupo, com Francisco Cossavella (bateria), Fernando Toyos standards e outras músicas, ou seja, canções conhecidas do jazz em sua maioria. De vez em quando, um dos músicos levava um tema próprio ou de outro. Na época, eu não compunha nada, mas tinha muitas ideias. Fragmentos isolados de músicas escritas na cabeça ou em um papel; alguns deles, com o tempo acabaram resultando em temas próprios. Não queria gravar standards como All the Things You are, então, um dia eu apresentei um tema meu e todos me encorajaram a compor novamente. Foi um processo lento, mas que levou ao conceito do álbum.

O conceito foi tocar todos os temas de uma forma que não houvesse grandes saltos estéticos, ao passar de um tema meu para um de Messiaen ou Spinetta. O som do grupo era algo que envolveria essas músicas e as aproximava, simplesmente porque tudo o que se ouvia era abordado com a mesma linguagem musical, a nossa naquele momento (novembro de 2013 para ser preciso). Daí a analogia com o jogo chinês, que envolve montar muitas figuras diferentes sempre com as mesmas peças.

WG - Das oito músicas, três são autorais: Sobrestima, Sin Margen e Calvin. Conte-nos um pouco sobre cada uma delas.
MS - Sobrestima foi o primeiro tema autoral que levei ao grupo. Na gravação, Juan toca sax-tenor: grande músico que eu admiro muito (que foi substituído por Lucas em outros temas no disco) e com quem compartilhei outros grupos mais tarde. Em Tangram, é o único tema em que participa.

Sin Margen é uma composição que escrevi sem muita margem de tempo para um projeto incrível que durou quase dois anos chamado de "Colectivo de Compositores", que acontecia quase todos os domingos em La Playita o que é hoje Roseti 722. Em cada encontro, três compositores tinha um tema, ensaiavam um pouco as partes e em seguida, apresentavam uma versão ao vivo. Era algo como uma oficina de composição, com muito espaço para improvisação. Eu já estava programado, faltavam apenas 4 ou 5 dias e não tinha escrito nada. Mas eu enfrentei a composição, trabalhei rápido as coisas e finalizei a ideia inicial do tema que era uma melodia em 7/8. Depois eu fiz algumas modificações e foi essa versão que finalmente gravamos.

Calvin, era o cão de minha avó. É uma canção triste que eu escrevi no dia que ele morreu depois de uma longa doença. Numa tarde eu sentei para tocar, gravei e saiu essa melodia. Em outro momento eu coloquei acordes, mudei uma ou outra nota, mas foi uma melodia espontânea nascido da dor dessa perda. A ideia de como tocá-la, creio que a propus a Ferto: foi começar com uma impro que derivei da melodia original e em seguida, outra impro. Nós gravamos outra música minha, mas decidi deixá-la de fora do disco, senti que precisava amadurecer, provavelmente será parte do próximo disco.

WG - Como se deram as escolhas dos músicos e convidados de Tangram?
MS - Todos são amigos, que já haviam participado do grupo em algum momento. Eles sabiam todas as músicas que gravamos e por isso tinham que participar do disco. Além do mais, compartilhamos muitos momentos extra-musicais, como no caso de Nico Lowry que por gravarmos uma música dele, achei uma boa ideia convidá-lo a participar.

WG - Seu novo trabalho, Matias Suarez y los Sanavirones é recente? Qual é a proposta? Quem participa desse projeto?
MS - Este grupo foi modificado várias vezes no ano passado. Por várias razões, é difícil ter um projeto pessoal e manter alguma regularidade. Eu toco com músicos que por sua vez tocam em muitos outros projetos e que também têm os seus empregos. Hoje, o sexteto compreende grandes amigos: Lucas Goicoechea no sax-alto, Nicolas Lowry no sax-tenor, Juan Olivera no trompete, Maximiliano Kirszner no contrabaixo, Nicolas Politzer na bateria e eu na guitarra e composição.

Neste grupo assumi mais o papel de líder e compositor, apesar de todos contribuírem com ideias, pois há muito espaço para a improvisação. Há mudanças de instrumentação, podendo ser um quarteto ou duo, mas também posso usar o formato de sexteto e em alguns momentos incorporei a minha voz como um instrumento. Eu não poderia classificar a música do grupo em um gênero, mas entendo que jazz hoje engloba tudo, que contém um alto grau de improvisação, então vamos dizer que é Jazz do Sur. Estamos ensaiando, pois em outubro iremos apresentar a música que estamos trabalhando. Tem também a ideia de gravarmos um álbum, mas ainda não há data.

WG - Como é trabalhar como sideman nos grupos de Florencia Otero, Guillermo Harriague e da Anonimus Big Band?
MS - É sempre uma responsabilidade em tocar música ou idéias dos outros e também um grande aprendizado. No grupo de Guille Harriague há muito mais improvisação do que na Anonimus Big Band, onde quase tudo está escrito e há menos espaço para a surpresa. Estou muito feliz com esses projetos, são muito diferentes e me encontro rodeado por grandes músicos com os quais aprendo constantemente, isso me mantém trabalhando.

No grupo de Florencia estamos ensaiando com arranjos de suas músicas escritos por Paula Shocron, pianista do grupo. Iremos gravar em novembro deste ano e faremos diversas apresentações ao vivo. No grupo de Guillermo, tocamos bastante no primeiro semestre do ano, toda música dele é para trio (bateria, sax alto e guitarra). Recentemente gravamos vários temas, mas não sei se farão parte de um disco ou o que Guille fará com este material, pois não nos reunimos para escutá-lo.

Com a Anonimus, há um mês gravamos o primeiro álbum da big band Mar Rojo. Estamos terminando a mixagem e estará disponível antes do final do ano, eu acho que pela Internet para depois editá-lo no formato físico. Gravamos música de Hernan Cassiva, o baixista do grupo, de Guillermo Klein e uma suite de Juan Cruz de Urquiza, que também participou como convidado, e composições para orquestra do macedônio Vladimir Nikolov.

WG - Quais são seus próximos projetos?
MS - Nesso momento, eu tenho muitas ideias para o futuro: estou envolvido com os projetos atuais e há sempre coisas novas no caminho. A princípio, gravar com os Sanavirones e tocar ao vivo a música do grupo. Agora que você me fez esse pergunta, me lembrei que, assim que Fran Cossavella retornar à Argentina gostaria de montar um grupo de canções com ele e um baixista, eu tenho alguns em mente, e em vez de dar a melodia a um saxofone, cantá-la com uma letra, dizer algo que exceda a música, eu sempre gostei de cantar.

No grupo de Flor Otero eu canto algumas coisas, pois sinto que é uma forma de expressão que não explorei muito ou que não coloquei em qualquer outro projeto, porque em casa canto muito. Falávamos muito sobre isso quando sobre isso quando Fran vinha aqui, mas naquele momento não tínhamos músicas, portanto, ficou pendente. Eu estou escrevendo letras e tenho algumas melodias, estou fazendo as coisas com calma, para quando chegar a hora eu tenha algo concreto a começar o trabalho.


INTERNET

Matías Suarez - Página

Matías Suarez - Tangran

Matias Suarez y los Sanavirones - Nazca

Jam de Martes - Tangram

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