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Leo Gandelman, Enrico Rava e Miles Davis

Para esse início de setembro, dois lançamentos: a revisão da obra do pioneiro Casé por Gandelman e o bruxo trompetista Enrico Rava ao lado do trombonista Petrella apresentam Wild Dance. E completando o trio, o gênio de Miles passeia por Newport, dentro do formato bootleg.

03/09/2015 - Wilson Garzon

Leo Gandelman - Velhas Ideias Novas (Kiko Ferreira, jornal O Estado de Minas, 25/08/2015)

Se em 'Radamés e o sax' (1987) o foco era a música do gaúcho Radamés Gnatalli e em 'Vento do norte' (2014) o culto era aos estilistas nascidos no Norte e no Nordeste do país, agora a atenção se dirige ao mineiro de Guaxupé José Godinho Filho, o Casé. Nascido em junho de 1932 e encontrado morto num hotel da Boca do Lixo, em São Paulo, em dezembro de 1978, ele começou tocando bateria, aos 10 anos, acompanhando o pai, que era sapateiro de profissão e músico nas horas vagas. Teve um irmão trompetista e três irmãos saxofonistas. Aos 12, assumiu o sax e clarineta e, além de bailes, tocou em circo, boates e gafieiras. Tornou-se o primeiro saxofonista da orquestra da Rádio Tupi aos 13 anos e, aos 21, excursionou por Europa, Oriente Médio e Estados Unidos.

A homenagem a Casé foi bem- executada, com misto de técnica e entusiasmo a cargo de um grupo bem integrado, com Leo se revezando entre os saxes alto, tenor e barítono, ao lado do baixo do sobrinho Alberto Continentino, do piano de Eduardo Farias, de Rafael Barata e Antonio Neves na bateria, do sopro de Serginho Trombone, das guitarras de Ricardo Silveira e Lula Galvão, com a percussão de André Siqueira e Beto Cazes.

O repertório, que vai de 'Linda flor' (Henrique Vogeler e Luis Peixoto), de 1928, a 'Coisa nº 10' (Moacir Santos e Mario Telles), de 1965, começa com Noel Rosa ('Feitiço de oração' e 'Feitiço da vila'), passa uma turbinada em Lupicínio ('Se acaso você chegasse'), relembra a rara parceria de Vandré e Carlos Lyra ('Quem quiser encontrar o amor'), apimenta o Nelson Cavaquinho de 'A flor e o espinho', recupera a 'Menina moça' de Luiz Antonio, o Baden de 'Cidade vazia' e o 'Amor proibido de Cartola', desaguando no malandrinho 'Tamanco no samba', de Orlandivo e Helton Menezes.

Um conjunto de standards que recebe do grupo um tratamento ao mesmo tempo respeitoso e inspirado, com bons solos e uma sonoridade bem-definida, com arranjos bem-concatenados de Leo e do pianista Eduardo Farias. Casé, com certeza, ficaria feliz com a homenagem.


Enrico Rava - Wild Dance (Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil, 29/08/2015)

Enrico Rava gravou nove álbuns para a ECM, entre 1975 e 2012, dentre os quais merecem especial atenção os seguintes:Easy living (2004), quinteto com o trombonista Gianluca Petrella; Tati (2005), trio com o pianista Stefano Bollani e o baterista Paul Motian; The third man (2007), duo com Bollani; New York Days (2009), quinteto com o saxofonista Mark Turner e o baixista Larry Grénadier, mais Bollani e Motian.

O décimo disco do trompetista-compositor para o selo de Eicher, que acaba de ser lançado, intitula-se Wild dance, e foi gravado em janeiro deste ano, em Udine. Rava está à frente do seu novo conjunto, integrado pelo fiel Petrella (trombone), e por três novas estrelas do jazz italiano, com idades que variam entre 26 e 31 anos: Francesco Diodati (guitarra elétrica), Gabriele Evangelista (baixo) e Enrico Morello (bateria).

A linguagem muito pessoal de Diodati, que combina o seu fraseado melódico-harmônico bem espontâneo com inesperados efeitos eletrônicos (“nuvens sonoras”), à la Bill Frisell, é a maior novidade desse quinteto. Evangelista e Morello também reforçam a fama do septuagenário trompetista de descobridor de jovens talentos.

Apesar de incluir no menu uma seleção de 14 peças de Rava, algumas inéditas, o disco da ECM dura menos de 60 minutos. Seis faixas não vão além de 4 minutos, e apenas três passam de 7 minutos: a lírica Diva (7m40), que abre o álbum, Space girl (7m20) e Frogs (8m).

As seis faixas mais curtas incluem a faixa-título, Wild dance (2m55) – que não é nenhuma “dança selvagem”, mas algo bem mais tranquilo – e a excêntrica Cornette (3m10) – uma evidente referência à música de Ornette Coleman, composição escrita pelo líder na década de 1980.

“Estou muito feliz com este disco – comenta Enrico Rava no release do CD. Foi um dos mais fáceis de fazer da minha carreira, simplesmente porque estávamos todos num clima positivo e produtivo. Quase todas as faixas foram de primeira (first takes)”.


Miles Davis At Newport - The Bootleg Series Vol. 04 (Bruno Vitorino, texto extraído do blog http://variacoespara4.blogspot.com.br/)

Se Deus é brasileiro, não posso afirmar ao certo. No entanto, ao que parece, ele não apenas existe, como dá sinais de que, de fato, nos ama. A Sony Music acaba de lançar no mercado brasileiro o quarto volume da série de apresentações ao vivo de Miles Davis que a multinacional japonesa vem garimpando do aparentemente infinito baú de preciosidades que o selo Columbia Records, catálogo que atualmente lhe pertence, contém. O miraculoso disso tudo é que, se levarmos em consideração que a indústria fonografica basicamente desmoronou ao redor do mundo e parcamente sobrevive no Brasil graças a nomes como Luan Santana e Anitta, o lançamento de um álbum quádruplo de Jazz, ainda que de um ícone, soa quase como um ato de fé voltado para os poucos devotos do caráter transcendental da música.

Ao contrário dos outros volumes que o precederam, “Miles Davis At Newport” documenta não apenas um momento específico de determinado combo do trompestista, mas uma saga inteira de sua participação no Newport Jazz Festival, um dos mais importantes do jazz, ao longo de 20 anos - de 1955 a 1975. Além disso, a caixa traz algumas apresentações históricas, como a interpretação de Round Midnight, de Thelonious Monk, na segunda edição do festival em 1955, que lhe rendeu, além de uma séria desavença com o próprio Monk após a apresentação, a atenção da crítica especializada por causa daquilo que seria sua marca registrada, o lirismo de seu trompete com surdina bem próximo ao microfone, e o interesse do selo Columbia Records, que há época começava a montar sua constelação de artistas de Jazz para entrar com força no segmento. Para citar somente um exemplo.

Nesta compilação, podemos constatar as drásticas mudanças de direção promovidas por Davis em sua música - e consequentemente no Jazz em si - que o levaram das searas mais tradicionais do Bebop/Cool Jazz, passando pela verve mais livre e incendiária de seu Segundo Grande Quinteto que conectava os preceitos libertários do Free Jazz aos ditames estéticos do Hard Bop, até chegar àquilo que se convencionou chamar de Jazz Fusion, ou seja, a inserção de instrumentos elétricos, grooves “funkeados”, grandes ensembles, improvisações coletivas e pouquíssima ou nenhuma movimentação harmônica, naquilo que Miles Davis chamava de liberdade dirigida.

Assim, com esse recorte do continuum da História, vários de seus grupos são registrados em quase 5 horas de material, e, por conseguinte, não passa também despercebido o seu tino enquanto bandleader para escolher somente a nata dos músicos para tocar, dando espaço e por vezes revelando artistas que se consagraram no panteão jazzístico: John Coltrane, Bill Evans, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Dave Holland, Tony Williams, Keith Jarrett, Chick Corea, Jack DeJohnette... Em resumo, item absolutamente indispensável a todo aquele que se interessa seriamente por música.

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