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Jazz na Fábrica! Noites de Jazz em Sampa!

Na quinta feira, 13/08, zarpei do Rio para São Paulo, com o propósito de curtir uma etapa do festival "Jazz na Fábrica", que está rolando no SESC Pompéia durante este mês de agosto. Esta é a quinta edição e este festival costuma trazer alguns nomes do jazz contemporâneo, os artistas da livre improvisação, e escolhi exatamente este fim de semana para conferir. Aproveitando a estadia nesta terra de empreendedores de cultura não poderia deixar de esticar as noites em algumas casas locais. A oferta de música na cidade é farta e é só escolher bem respeitando os deslocamentos.

18/08/2015 - Paulo Cesar Nunes

Quinta 13/08

Muhal Richard Abrams (Jazz na Fábrica-SESC Pompéia)
Um dos mais importantes pianistas do movimento free jazz, o senhor de 84 anos veio com sua bagagem que começou a ser preenchida lá nos anos 50 tocando com uma tropa legal de hard bop e até de blues, mas logo se interessou pelos experimentadores acabando por se tornar um dos ícones do movimento de improviso, tendo tocado com Roscoe Mitchel, Anthony Braxton, Kenny Doham, Woody Shaw e muitos outros. Sua discografia é extensa principalmente a partir dos anos 70, quando registrou alguns clássicos do gênero inclusive de piano solo, formato que escolheu para apresentar em sua primeira visita ao Brasil. Acostumado a tocar em todas as formações usuais de jazz Muhal subiu ao palco do SESC e ficou por uns momentos introspectivo.

Iniciou seu longo improviso com tons graves profundos e aos poucos foi inserindo movimentos suaves que alternava entre climas calmos e momentos obscuros de algum suspense, foi nos conduzindo como se estivesse contando algum filme de muitas cenas, nas quais uma das mãos tocava obscura e grave a outra rápida e insinuante passeando entre múltiplas notas, um manancial de criação improvável que não cansou a plateia. Diferente de seus contemporâneos de free jazz, Muhal não caminha insistentemente pelas dissonâncias, mas joga com as harmonias como se seu improviso estivesse escrito e ele estivesse brincando com uma pauta invisível. De fato, ele se destaca no movimento por ser bastante palatável, embora a doçura demonstrada com algum virtuosismo jamais esteja desacompanhada dos climas tensos e até sinistros com que sustenta seu improviso. Um gênio. Tocou de forma ininterrupta por quase 40 minutos e encerrou sua participação, sendo aplaudido de pé pelo extasiado público. O senhor Abrams voltou ao palco para mais cinco minutos de lambuja e um singelo "thank you".

Diego Sales Quarteto (Jazz nos Fundos)
Saí correndo do SESC e cheguei ao tradicional point do underground paulistano ainda no primeiro set deste formidável quarteto. Diego Sales é gaitista e eu esperava algo com muito sotaque bluseiro mas este executante da diatônica tem um inusitado tempero jazzista, ainda mais secundado pelos furiosos companheiros, todos músicos talentosos com vários projetos paralelos na noite da cidade. Me impressionou a gama de recursos do guitarrista Caio Chiarini, um inquieto acompanhante na base com múltiplas facetas , que logo se transforma em solista brilhante quando assume a frente do quarteto ! O baixista Fabio Martinez esculachou no elétrico dando ao grupo uma deliciosa levada fusion com forte pegada nos solos. Eu já conhecia o baterista Wagner Vasconcelos, esteve em Paraty com o organ trio Hammond Grooves.

Um autêntico representante da escola brazuca de bateras com groove e swing, e o gingado brasileiro tão apreciado no exterior. Por sua vez o band leader Diego Sales conduz os temas alternando elegância e sofisticação com um fraseado atrevido típico dos gaitistas virtuosos. Em alguns momentos parece tocar uma gaita cromática, até agora não entendi como consegue esta sonoridade, e nos solos sopra até acabar o fôlego! Os caras tocaram Hermeto Pascoal, Charles Mingus, Wayne Shorter, Jaco Pastorious , alguns deles inseridos no ótimo disco que estavam lançando no show, e que conta com temas autorais de Diego e de Caio Chiarini, momentos em que brincam com o competente instrumental brasileiro até o namoro com o samba jazz. Uma pauleira empolgante que recomendamos a todos que puderem estar em suas próximas datas.


Sexta 14/08

Soft Machine (Jazz na Fábrica-SESC Pompéia)

O momento que motivou minha viagem a São Paulo, um sonho de adolescência sendo realizado. O cultuado grupo inglês ícone da cena Canterbury e que iniciou sua carreira nos anos 60 em meio a tantas correntes que estavam germinando e explodiram nos fabulosos anos 70. A sonoridade que misturou uma psicodelia ao jeito londrino de tocar bastante inspirado no jazz, influenciados pelos primeiros momentos do rock progressivo por um lado e por outro lado o jazz fusion que tb começava seus primeiros passos. O grupo teve várias formações com as quais arregimentou legiões de fãs e seguidores nas décadas seguintes. Veio ao Brasil com três membros que militaram nos primeiros anos : o guitarrista John Etheridge, o batera John Marshall e o baixista Roy Babington, aos quais se junta o saxofonista Theo Travis, músico de muitos projetos, inclusive com Robert Fripp e com Steven Wilson. Para nosso delírio esta apresentação aconteceu no democrático espaço Chopperia, amplo salão que conta com longas mesas laterais e um grande espaço vazio onde uma multidão se aglomera na frente do palco. Com som impecável a plateia se extasiou com o irrepreensível set list já desde o primeiro número, um desfilar de temas de diversas épocas da banda, importante bastião do jazz rock, movimento que se encontra outra vez em expansão.

Eles já tinham tocado na virada cultural de 2011 com o saxofonista Art Themen no lugar de Travis que não pôde vir. Desta vez o mestre de cerimonias Etheridge estava mais à vontade, sempre muito simpático e o espaço mais afeito à música de qualidade caiu com uma luva, já que muito mais gente se distribuiu nas duas datas, esta era a segunda noite. No povão muitos músicos se misturavam aos fãs da banda, gente de todas as idades e alguns curiosos de entender a magia de uma formação instrumental de cinco décadas com tantos seguidores. Não faltaram os temas mais tradicionais como Facelift, Hazard Profile e Kings and Queens, mesclados com temas desta última formação, como The Steamer, Fallout e Voyage Beyond Seven. Como sempre as belas composições com diversas viagens de improviso dos quatro. Um solo espetacular de John Marshall , terminam com Grave e voltam para o bis com As If, do álbum homônimo de 1972, em uma suja interpretação. Pouco mais de uma hora e vinte. Ovação total!

Daniel Daibem Quarteto (Jazz B)
Saí do SESC direto para o centro para conhecer esta casa que fica ali na região da Praça da República, região que era um antigo antro de notívagos mas que vem sendo revitalizada como a Lapa no Rio. Além de muitas baladas fica ali na Gal Jardim a nova casa Jazz B dos mesmos realizadores do Jazz nos Fundos, mas com mais sofisticação. Além das mesas distribuídas pelo espaço do lado do palco até o bar, em frente ao palco tem uma pequena arquibancada com mesinhas, bem legal pra assistir os shows. E tem sessão de meia noite até 1 da manhã. Mas foi mesmo o guitarrista Daniel Daibem, grande estudioso, divulgador e radialista de programas de jazz, o motivo de minha escolha.

Empunhando uma Gibson gorducha, o bandleader que costuma interagir com a plateia desfilou composições de Wes Montgomery, Grant Green e George Benson, de quem cantou On Broadway. Seu grupo se completa com o baterista Vitor Cabral, o consagrado Rodrigo Mantovani no contrabaixo, e o pianista Leandro Cabral, que se revezou num teclado e no piano Steinway & Sons da casa. Sim, lá tem um S&S bem legal e o Leandro tocou divinamente! Daniel tem ótima voz e um dedilhado limpo, um artista de muito boas escolhas dentro de sua proposta. Dentro de tantas opções para aquela sexta foi uma dádiva ter estado de frente para esta gig. Os músicos tocaram uns 50 minutos de maravilhoso jazz, o set mais dentro do swing sessentista que ouvi nesta viagem. 10 pontos!


Sábado 15/08

William Parker Quartet (Jazz na Fábrica-SESC Pompéia)

Com muita ansiedade para ver este ícone do jazz contemporâneo nos posicionamos no teatro do SESC. Este é mais um representante da escola de livre improvisação, neste caso sobre temas compostos. Parker participa de enorme discografia, cerca de 130 discos como bandleader e como sideman ou participações, registros que vem desde os 80 até os dias atuais, estando em atividade desde os anos 70. Tocou com Cecil Taylor, Peter Brotzmann, John Zorn, David S Ware, Matthew Shipp, e com o brasileiro Ivo Perelman, para nomear alguns dos mais importantes. O quarteto se montou com três músicos que como lembrou Parker ao anuncia-los, estão com ele há muitos anos, tocam neste grupo multipremiado desde 2000 sendo facilmente identificados no meio desta discografia. São eles o sax alto Rob Brown, o trompetista Lewis "Flip" Barnes e o incrível baterista Hamid Drake, todos com larga experiencia no terreno do free jazz. W Parker trouxe ao Brasil seu upright bass preto com detalhes e símbolos em vermelho, visual completamente fora dos tradicionais de madeira lustrada universalmente apresentados.

Quando nos deparamos com uma formação sem piano já sabemos que vai ter quebradeira e foi o que aconteceu. Começaram com um longo tema de vigorosa marcação rítmica - uma constante nestas composições atuais deles - suíte composta com melodias formando uma linha dos sopros sobre o ritmo e muita, muita improvisação alternada entre os quatro. Após 25 minutos Parker dedicou esta composição a Horace Silver. Seguiu com um tema de outro de seus partners, Jerome Cooper, que dedicou a George Russell, e neste tema Hamid Drake arrancou forte aplauso da plateia, um monstro nas baquetas. Os músicos Brown e Barnes quebrando tudo nos solos sobre as partes mais latinas ou afro ritmadas, Parker tocando a flauta shakuhachi num clima mais ameno, com Drake tocando com os dedos. Por vários momentos do show Parker usou o arco, uma marca infalível em sua obra. O terceiro tema começa com solo de Rob Brown e seguem num crescendo de improvisos sobre suíte composta e terminam após pouco mais de uma hora de show mas voltam para uma quarta composição intitulada People’s Change. Um arraso de apresentação! Do lado de fora uma pilha de discos foi disputada e desapareceu em poucos minutos.

Pedro de Alcântara Trio + Lupa Santiago (Jazz B)
Volto ao palco do Jazz B, era a segunda entrada desta noite de sábado para conhecer o trabalho do pianista capixaba Pedro de Alcântara e seu trio formado pelo baterista Edu Nali e pelo baixista Gilberto de Syllos, aos quais se juntou o auxílio luxuoso do guitarrista Lupa Santiago, músico de enorme prestígio na cena instrumental brasileira. Tendo tocado já em vários festivais internacionais, Pedro é um grande nome da música em seu estado e vem construindo sólida carreira, como podemos ver no ótimo disco Alma Capixaba, um belo box de CD e DVD cuidadosamente produzido. O músico viaja esta semana para apresentações na França.

Seu trabalho privilegia o instrumental brasileiro, e no set que eu assisti eles tocaram temas próprios como o suingado tema Dom do Samba, de Lupa Santiago, e a bela composição Jade, no qual Pedro homenageia sua filha mais nova. Com arranjos de muita qualidade e competência nas execuções, os músicos aproveitaram bem os espaços nos solos e colocaram bastante brilho nesta apresentação. No fim tocaram Nanã, do maestro Moacir Santos, e no bis encerraram em trio com uma antiga balada chamada Sol da Manhã, com a qual o capixaba Carlos Papel participou do Festival dos Festivais em 1985. Música instrumental brasileira de muito bom gosto com generosas pitadas jazzistas para encerrar minha viagem a São Paulo. Espero voltar em breve para mais uma jornada de música na terra da garoa, que para minha sorte está com ótimo clima por estes dias facilitando os deslocamentos.

PS - Recomendamos a todos acompanhar o festival Jazz na Fábrica, consultem a programação na agenda do Clube de Jazz. Até o fim do mês se apresentam grandes nomes nacionais e internacionais em três espaços distintos do SESC Pompéia.

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