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Jazz segundo João Bosco

João Bosco se apresenta hoje em Belo Horizonte no Savassi Festival o show “João Bosco e o Jazz” no Teatro Bradesco. Para essa tarefa, reuniu um dos principais times jazzísticos do país, formado por Alexandre Carvalho (guitarra), Jimmy Duchowny (bateria), Ademir Jr. (sax e clarinete), José Arimatea (trompete e fliscorne), Rafael Rocha (trombone) e Jefferson Lescowich (baixo acústico). “Eles são a alma disso. O formato do show é com comentários instrumentais dos músicos, como clarinete e trombone. Queremos chegar no ponto ideal da improvisação”, adianta João Bosco.

João Bosco, Alexandre Carvalho, Jimmy Duchowny, Ademir Jr., José Arimatea, Rafael Rocha e Jefferson Lescowich.

08/07/2015 - Lucas Simões, jornal 'O Tempo', 08/07/2015

Há dois meses, o compositor reuniu o sexteto em sua casa, no Rio de Janeiro, onde passou algumas canções informalmente – o bastante para chegar a um repertório. Ele pegou o violão e foi tocando. Deixamos um iPhone gravando na mesa e pronto: tiramos um repertório. Foram uns quatro ensaios, se não me engano, diz o baterista Jimmy Duchowny. Não terminamos (o arranjo) de ‘Bala com Bala’ para você ter ideia, vamos fazer hoje (anteontem) porque tive ideias novas, completa João Bosco.

Desses encontros espontâneos, o compositor selecionou um set list de 12 a 13 músicas, sendo apenas três autorais – Bala com Bala, Incompatibilidade de Gênios e Varadero. O que parece uma surpresa, soa natural para o artista. Poderiam ser outras músicas, mas foram essas. Não tive necessidade de percorrer minha discografia. Eu queria tocar jazz, mas principalmente músicas que me formaram como músico, justifica João Bosco.

Nesse formato, a maior parte do show é dedicada à memória musical de João Bosco, desde as influências das congadas em Ponte Nova, onde o compositor passou sua infância, até as 24 regravações que Elis Regina fez de suas canções. Entre algumas versões certas que o compositor apresentará em formato de jazz estão Tarde, de Milton Nascimento, Desafinado e Retrato em Preto e Branco, ambas de Tom Jobim, além de homenagem a Miles Davis, com Blue In Green, e a Richard Rodgers, com uma versão de My Favorite Things – presente no filme “A Noviça Rebelde”, de 1965.


ENTREVISTA

Lucas Simões -
A originalidade de seu violão foi rotulada muitas vezes como percussiva. Ainda hoje, com 40 anos de carreira, você desenvolve outras técnicas em cima do seu principal instrumento?
João Bosco - Meu violão é um violão intuitivo. Eu nunca estudei, desde o começo. Até hoje, as transformações que acontecem no meu violão são sensoriais, não são capazes de uma explicação conceitual. Digamos que a música que eu faço é uma exigência do instrumento. O violão surgiu na minha frente, comecei a tocar e não parei. Nunca levei o violão formalmente a sério. O Luizinho Eça, que fez dois discos comigo, meu primeiro LP, de 1973, e o “Galos de Briga” (1976), se propôs a tentar me fazer entender a música.

Foi numa viagem de ponte aérea, de São Paulo para o Rio. Ele disse que eu ia gostar de aprender música. Mas eu não aprendi. Primeiro porque eu sempre tive medo de avião e não consegui me concentrar. Depois, o Radamés Gnattali perguntou se eu não queria reger. Eu disse: “eu reger? Você está louco! Eu quero só tocar meu violão”. Então ele disse: “larga essa música para lá, não vai estudar porra nenhuma, vai tocar seu violão”. E é o que faço.

LS - Como foi compor arranjos de jazz para canções que você escreveu há 40 anos, como “Bala com Bala”, por exemplo?
JB - Foi super natural. Isso foi saindo como uma improvisação. Conversando com Chico Buarque uma vez, ele contou a história de um pintor francês que aos 90 e tantos anos ia aos museus de Paris retocar os próprios quadros. A música é isso aí. Você vai ver músicas do Tom Jobim que ele gravou cinco vezes e fez diferente. Minha música de batismo, “Águas de Março”, que ele gravou no meu primeiro disco, de 1972, não tem o coro famoso da música. Esse arranjo só vai surgir anos depois. Hoje você não consegue escutar aquela música sem essa parte. É incrível isso!

LS - Você tem a ideia de sair em turnê com o show “João Bosco e o Jazz”. E gravar um disco?
JB - Eu adoraria, inclusive com essa formação, até depois do evento (Savassi Festival), podemos estudar três ou quatro músicas a mais, a gente pode continuar a conversa que tivemos em casa, tocar mais um pouco e pensar em um disco, sim. É possível. Seria sim maravilhoso uma turnê, tanto no Brasil quanto no exterior. É algo que será pensado também.

LS - Pensa em gravar um disco novo?
JB - Sim. Teremos um disco de inéditas em 2016. Já estou trabalhando nele. Fizemos uma música com o Aldir Blanc, “Duro na Queda”, um samba. Tô esperando alguma parceria com Chico Buarque, Criolo e Arnaldo Antunes.

LS - O que você acha sobre as experimentações e misturas da música brasileira contemporânea?
JB - Sobre essa história da mistura da música brasileira, já tive pensamento sobre isso. Mas hoje não tenho mais, estou “let it be”. Façam e me deixem fazer. Hoje em dia, os caras escutam qualquer coisa. Essa coisa do computador... O cara escuta aquele troço malhado, sem qualidade e se dá por satisfeito. Acho isso ruim para o ouvido e para a memória. A memória precisa de algo bem acabado. É preciso ralar e trabalhar antes de realizar uma ideia.

LS - Você tem opinião sobre a Lei Rouanet e a liberação das biografias no STF?
JB - Eu acho que existem produções que se garantem sem ajuda. E tem outras produções que não acontecem porque não têm ajuda. Esse desequilíbrio tem que acabar. Em relação às biografias, se não houvesse aquela discussão, talvez as pessoas não tivessem o conceito de que é importante liberar as biografias. Eu sempre fui a favor (da liberação). Mas só achei que estava próximo ao certo, depois que houve uma discussão profunda e o STF apresentou argumentos para isso.

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