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O novo jazz na palavra do Mestre Muggiati

O jornalista e escritor Roberto Muggiati é uma das maiores autoridades em se falando da história do jazz, seja nacional ou internacional. Ele estará presente em Belo Horizonte para discorrer em torno de seu livro "New Jazz - De volta para o futuro" e demais temas a serem desenvolvidos a partir dessa ideia central.

01/07/2015 - Wilson Garzon

Wilson Garzon - "New Jazz - De volta para o futuro" foi lançado há 16 anos. Na palestra, você pretende abordá-lo dentro desse contexto?
Roberto Muggiati - Na época ocorria um fenômeno curioso na cena do jazz: o surgimento de uma nova geração de instrumentistas e cantores que, por sua garra e energia, foram batizados de Young Lions. Eram músicos nascidos a partir de 1960 (raras exceções: Billy Childs, 1957; Pat Metheny, 1954; Joe Lovano, 1952. Encabeçava o movimento o trompetista Wynton Marsalis, seguido por seus irmãos Branford, Delfeayo e Jason. Eu fui, a princípio, contra a ideia do livro. Uma quantidade de novos músicos com um, ou no máximo dois álbuns lançados, e no auge da atividade.

Um ano depois, o livro estaria desatualizado – sem mencionar os novos talentos aparecidos depois da sua publicação. O curador da coleção Todos os Cantos, Tárik de Souza, e a editora da 34, Bia Bracher, insistiram. Quando a Bia conseguiu um patrocínio para toda a coleção – com uma “bolsa” de um ano para cada autor – decidi encarar o desafio. Tentei cercar o tema de um modo mais temático e menos factual, para escapar da desatualização. Eu já fizera isso com sucesso no livro Rock: o grito e o mito/A música pop como forma de comunicação e contracultura (Vozes, 1973). O próprio título do livro (escrito em 1998 e publicado em 1999) reflete essa estratégia: New Jazz: de volta para o futuro.

Subentende – nas novas correntes do jazz e em seus novos intérpretes – uma noção e um respeito profundos da tradição, de todas as escolas estilísticas anteriores. Firmei ainda o peso da contribuição de Duke Ellington, cuja big band foi uma espécie de sinfônica da sintaxe musical afroamericana. Cito do livro: “Tudo no New Jazz passa por Duke Ellington. Ele é o Norte magnético de toda e qualquer música que se faça nos Estados Unidos. Não há instrumentista ou cantor da nova geração que não recorra – para injetar um pouco de elegância em seu repertório – às composições do Duke. Branford Marsalis, que se define como um neo-bopper, já declarou: O jazz dos anos 70 foi um fracasso. Procuro minha identidade em pessoas como Duke Ellington. Harry Connick, Jr., por sua vez, que odeia guitarras elétricas e sintetizadores, revela a fórmula do seu estilo: 60% de Thelonious Monk, 20% de Duke Ellington e 20% de Harry Connick.

WG - Como você está percebendo as novas tendências do jazz nesse século?
RM - Recapitulando: graças aos discos, ao rádio e principalmente ao cinema, o mundo inteiro – já nos anos 20 e 30 – imitava (mal) as jazz-bands americanas. O jazz reinou soberano, made in America, até os anos 40-50. Por sua curiosidade – e também pela necessidade de se diversificar – buscou outras músicas: o afrocubano de Dizzy, o japonês de Brubeck, a bossa nova de Stan Getz. A partir dos anos 60 as porteiras se abriram: havia um jazz fabuloso feito na Inglaterra, na França, na Polônia, na Rússia, no Japão, no Brasil e na Argentina. Essa globalização só fez crescer.

Ao mesmo tempo, é preciso atentar para o fabuloso aumento das plateias para o jazz ao vivo: nos clubes noturnos e nos festivais pelo mundo inteiro, que proliferaram de maneira incrível. A razão principal desse fenômeno é que o jazz se impôs como música de alta qualidade e como marca de sofisticação.
Hoje é difícil acompanhar a legião de novos talentos que surge da noite para o dia. Crianças-prodígio também começaram a despontar aqui e ali. Grace Kelly, americana filha de coreanos, brilha hoje como saxofonista, compositora e arranjadora, muitos anos depois que, ainda garota, Phil Woods literalmente lhe passou o boné. E a toda hora surge um gênio do piano ou do trompete com dez ou onze anos.

Em maio ouvi no Festival de Jazz de Jurerê o organ trio do guitarrista sueco Ulf Wakenius num tributo a Wes Montgomery, o tecladista romano, o baterista parisiense. Ulf costuma tocar com a cantora coreana Youn Sun Nah – ouçam os dois, ele no violão acústico, no Festival de Jazz de Sofia, interpretando "Frevo" de Egberto Gismonti. O Festival de Jurerê teve o seu gran finale com o Buena Vista Social Club, na turnê Adiós, iniciada na Polônia em meados de 2014 e que será encerrada com um grande concerto em Havana no final de 2015. São algumas amostras do jazz globalizado que vivemos.

WG - Atualmente, que músicos você destacaria da velha e nova safras do jazz brasileiro?
RM - Existe uma riqueza muito grande de instrumentistas no Brasil, apesar da pobreza de espírito com que são tratados pelas engrenagens do poder cultural. Monstros sagrados como Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal estão ativíssimos (o Bruxo comemorou seus 79 anos com um show em Realengo, Rio, no dia 22 de junho). Oitentões robustos também estão aí, como Raul de Souza e João Donato. Wagner Tiso, Toninho Horta – pra não esquecer o “jasmineiro”, uai! E a gauchada, tchê, do Borghetinho ao Delicatessen. Pantaneiros como Almir Salter, o velho baiano Elomar, a viola caipira paulista de Ivan Vilela, enfim, é um mundo...

O duo Gilson Peranzzetta-Mauro Senise comemora em alto estilo seus 25 anos de parceria. O duo de pianos Gisbranco (Bianca Gismonti - Claudia Castelo Branco) comparece com beleza e feminilidade. André Mehmari, o bandolinista Hamilton de Holanda. E outros mais, não quero exagerar na catalogação. Na área das big bands temos grupos sofisticadíssimos como a Jobim Jazz Band do Mário Adnet (e seu projeto Ouro Negro, com a música de Moacir Santos); a Banda Mantiqueira, de Nailor Proveta; a Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, do Serginho Albach; a baiana Orkestra Rumpilezz, de Letieres Leite; e a pernambucana SpokFrevo Orquestra.

WG - Pretende relançar o livro num formato atualizado ou já tem outro livro no prelo?
RM - New Jazz encerrou um ciclo. Não há como voltar àquele mesmo elenco e repertório. Muita coisa nova aconteceu e está acontecendo. Tenho a ideia de escrever algo sobre o centenário da primeira gravação de jazz, em 1917. Seria uma espécie de “arqueologia do jazz gravado”, pois temos aí a grande contradição da história. O jazz é um som que se perde no ar a partir do momento em que é feito. Mas, como não há possibilidade de ouvir de novo o que já passou, temos de recorrer à coisa registrada. Eu tentaria dar um panorama destes cem anos de jazz gravado – a evolução nas técnicas da gravação, os melhores momentos e os lances mais pitorescos também.

PALESTRA

19h30 a 21h00


Palco Biblioteca convida Roberto Muggiati para discussão de seu livro "New Jazz - De volta para o futuro"
Com participação do músico Rafael Martini e mediação de Bruno Golgher
Local: Sesc Palladium - Acervo Artístico e Literário
Entrada Gratuita

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