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Lucía Boffo: a garota que veio do frio

A cantora de jazz Lucía Boffo chegou a Buenos Aires em 2008, vindo de Ushuaia, a cidade mais austral do mundo e em pouco tempo se transformou em protagonista da cena do jazz portenho. Hoje é convidada permanente do trío do trompetista Juan Cruz de Urquiza e participa em outros três projetos, onde se destaca por suas improvisações e arranjos vocais.

Lucía Boffo, Hip Sista, com Andrés Marino, Juan Cruz de Urquiza e CDs.

29/06/2015 - Omar Gimenez, 22 de junho de 2015, especial para o Clube de Jazz.

Aprendi a cantar cantando, diz Lucía Boffo e enquanto conta seus últimos passos na cena do jazz local - esses passos precisos, certeiros, que em pouco tempo a colocaram no foco de músicos de primeira linha como o trompetista Juan Cruz de Urquiza, que hoje a conta como convidada permanente em um de seus projetos - vai demonstrando que essa alternância entre a aprendizagem e a prática é uma constante em sua forma de trabalhar.

À frente de quatro projetos – um trio de vozes que recria obras de Duke Ellington (Hip Sista), um duo de canções, um quinteto próprio e o trabalho com Urquiza - Boffo recorre à metáfora cartográfica para explicar a medula de seu trabalho atual. Cantar ao vivo é enriquecer sua formação a cada projeto em marcha para ver o mapa mais claro: porque se não vejo o mapa, não posso improvisar, diz.

E improvisar é chave no trabalho de Lucía: precisamente suas improvisações e a diversidade de recursos que emprega no scat são alguns dos elementos que a fazem tão singular. E que, com apenas 25 anos, lhe abrem cada vez mais as portas em uma Buenos Aires que, em matéria de cantoras, segundo Lucía, não para de crescer, mas para ela faltam professores de canto e locais onde se apresentar.

Formação e Buscas

Para melhor entender esta garota miúda e enérgica, que sabe que tem muito terreno a percorrer, convém conhecer algo sobre sua história. Nascida em Ushuaia, capital da Tierra del Fuego e a cidade mais austral do mundo, começou cantando no colégio e encontrou o jazz pelas mãos de músicos desse reduzido circuito jazzístico da cidade.

Em 2008, radicou-se em Buenos Aires e começou a estudar na Escuela Popular de Música de Avellaneda com a cantora Marina Rama. Ao mesmo tempo, por conta própria, com outras cantoras, como Guadalupe Raventos, a quem destaca como aquela que a ajudou a começar a romper estruturas e buscar caminhos novos.

Eu vinha aprendendo escalas e ela me disse que com as escalas estava tudo bem, mas que eu tinha que começar a desestruturar tudo isso. Assim, ela me ajudou a abrir a cabeça a tudo que é improvisação e scat, diz Lucía.
Contudo, há uma qualidade que é inata e que a ajuda em cada novo projeto. Ela se define assim: escuto muito; posso dizer que minha primeira virtude é saber escutar.

Somando o que foi aprendido ao que é inato, Lucía busca ampliar as possibilidades da improvisação ao cantar. Ela o faz colocando o acento em distintos elementos, com o objetivo de enriquecer sua proposta: timbres, sílabas, acentos, curvas melódicas, frases.

O trabalho com o timbre é super lindo; agrada-me sempre trabalhar com a extensão mais do que com o registro, diz Lucía, que também faz um trabalho minucioso com o manejo do ar: não é só a respiração, é a qualidade inspiratória. Não importa só a quantidade de ar que entra, mas também como entra.

Um aprendizado em cada projeto

É uma noite fria de junho, em torno da meia-noite, e no palco de Thelonius, um dos principais clubes de jazz de Buenos Aires, está a ponto de entrar o "Hip Sista", um dos projetos que Lucía Boffo leva adiante, acompanhada pelas cantoras Amparo Domián e Marina Rama, recriando temas de Duke Ellington com arranjos próprios. No trio de vozes, Lucía que é a única soprano entre duas mezzos, ocupa o lugar central do palco e assume o papel de front girl, apresentando os temas, fazendo chistes, conversando com suas companheiras e companheiros (músicos).

Ainda que na cena não se veja, Lucía tem outro papel na banda. Como muitos músicos argentinos de jazz, faz às vezes de produtora. E diz que seu trabalho, nessa função, é mostrar mais que contar. Lamenta-se de que na cena do jazz local se veja o manager como um luxo, não como uma necessidade. E opina dizendo que hoje deveria ter muitos mais clubes de jazz na cidade.

Outro dos projetos em que hoje participa como invitada permanente é o trio do trompetista Juan Cruz de Urquiza, formado por Urquiza no trompete e flugelhorn, Miguel Tarzia na guitarra e Sebastián de Urquiza no contrabaixo. É uma das propostas que mais a enriquece e que mais a credencia para trabalhar a improvisação orientada ao be-bop, aproveitando a instrumentação e o formato do combo que inclui guitarra, contrabaixo e trompete.

Na Argentina, o papel do cantor é o de crooner ou o de improvisar sobre o swing. Não há muita gente que improvise sobre o be-bop e em contextos mais amplos, que apresentem mais com o trabalho harmônico, não só com a paráfrase da melodia, afirma Lucía e acrescenta que essa vertente é a que explora com o grupo de Juan Cruz de Urquiza: me interessa a letra, a busca tímbrica, que é o que quero destacar na improvisação, que é o que vou dizer e como vou dizer.

Outro dos projetos em que trabalha é um duo com o pianista Andrés Marino, onde compõem temas próprios, que apesar de terem estrutura de canção, respondem à linguagem do jazz.
No duo, a ênfase está colocada nos papéis; trabalhamos permanentemente o contraste figura-fundo. Portanto, como são composições nossas, há um interesse especial na questão das letras. Tanto eu como Andrés viemos de longe (eu, de Ushuaia, ele, de Mendoza) e porisso é muito recorrente o tema da distância, esse jeito de "não sou daqui e nem de lá.

A estas propostas se soma a do quinteto que leva seu nome e que integra junto ao guitarista Rodrigo Aguledo, Tomas Fares (pianista de Pedro Aznar), o contrabaixista Leonel Cejas, o baterista Danilo Abad Celleri e Juan Cruz de Urquiza como convidado. Lucía define a música do quinteto como “eclética e modernosa”, baseada num material em que as composições são majoritariamente dela mesma ou de outros compositores do jazz argentino. A ideia é propor grooves que te levem como num transe, diz Lucía.

Um olhar sobre o jazz argentino atual

Na hora de analisar o jazz argentino de hoje, a cantora afirma que se caracteriza por ser mais uma linguagem que um estilo. O termo jazz, hoje, nos leva a uma abordagem profunda, a uma forma de entender a música.

Mas, ao mesmo tempo, vê no interesse pela composição outra das singularidades do jazz local: começa a abrir o jogo,já não é só jazz e swing. E menciona alguns dos grupos e solistas aos quais segue e gosta: entre eles, Diego Schissi, Escalandrum, Aca Seca e Puente Celeste. Entre as cantoras, escolhe a Barbara Togander, Melina Moguilevsky, Florencia Otero, Jazmín Prodan e a Mariana Iturri.

Contudo, também analisa criticamente à improvisação vocal local e diz que seu maior defeito é a falta de escolas: ainda que a quantidade de cantoras de jazz cresceu muito, é um processo lento e faltam formadores. E é uma carência importante. Porque a felicidade maior é que te mostrem o caminho.


Lucia Boffo - Facebook

Links de Áudio

Hip Sista

Lucía Boffo 5teto

Lucía Boffo & Andrés Marino Dúo

Youtube

Hip Sista

Lucía Boffo & Urquiza Trío

Lucia Boffo & Andres Marino Dúo

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