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A Guitarra Enfeitiçada de Oscar Alemán

O historiador, crítico e radialista de jazz, o argentino Sergio Pujol acaba de lançar a oportuna e necessária biografia do guitarrista Oscar Alemán, músico fundamental na fundação e estruturação de um jazz argentino. O jornalista Omar Gimenez nos apresenta uma sensível e criativa matéria sobre o livro de Pujol.

05/06/2015 - Omar Gimenez, para o jornal El Día (La Plata, Argentina), 31 de maio de 2015.

Lá fora é Natal, mas dentro, o homem moreno, magro, rosto indecifrável, que divide com sua esposa uns mates acompanhado pelo pão do dia anterior, trancado na cozinha de seu apartamento, parece não saber. Na parede do apartamento, eles contemplam as fotos e quadros que, com abordam cuidadosamente o seu passado glorioso, legendário, cosmopolita. Há Duke Ellington, Josephine Baker, Louis Armstrong, Pack - o cão preto que os nazistas mataram nas ruas de Paris antes de expulsá-lo - e há também imagens do Quinteto com o qual ele marcou um tempo no mundo música popular da Argentina. Um mundo no qual ainda iria brilhar muito tempo depois desse Natal.

Apenas quatro músicos argentinos conseguiram fazer uma contribuição adequada para o desenvolvimento do Jazz mundial: O "Mono" Villegas, o "Gato" Barbieri, Lalo Schiffrin. E Oscar Aleman, protagonista dessa história do início, um das resgatadas pelo historiador Sergio Pujol em seu novo livro: "Oscar Alemán, la Guitarra embrujada" (Oscar Aleman, a guitarra enfeitiçada).

Fazia falta uma biografia tão detalhada e minuciosa de Alemán, o mago da guitarra no jazz, o que colocou branco sobre preto e distinguiu, onde ainda é possível, a realidade da lenda. Para concretizar o livro, Pujol por anos recorreu a uma bibliografia extensa, filmografia e discografia (mesmo a mais recôndita), e fez inúmeras entrevistas. O resultado pode ser lido como a biografia necessária de um músico nem sempre lembrado como ele deveria merecer. Ou, como a história de uma aventura emocionante. Porque essa era a vida singular de um guitarrista nascido no Chaco dentro de uma grande família, que foi deixado sozinho quando ainda era um menino nas ruas de Santos (Brasil) após o suicídio de seu pai e terminou brilhando em primeiro lugar na Paris entre as guerras e mais tarde na Argentina peronista dos anos 50.

Pujol começa comparando a infância infeliz de pequeno "Oscarzinho" - que abre as portas dos táxis para viver, come metade de uma banana ao meio-dia e à meia-noite e sonha em comprar um cavaquinho – como num romance de Charles Dickens. Ele diz que foi a fome que o levou a desenvolver cedo, uma estratégia de sobrevivência, um histrionismo e um senso de humor que mais tarde o converteria num showman notável. Mas também observa que naqueles primeiros anos já despontava um swing natural, o ouvido privilegiado e a surpreendente memória musical que faria de Oscar um músico único.

Pujol conta mais tarde como tanta miséria acaba encontrando certa compensação em uma série de encontros que moldam sua vida como se fosse num filme:
com o guitarrista brasileiro Gastón Bueno Lobo, que introduz a Alemán, a música profissional;
com o ator Pablo Palitos, ele retorna a Buenos Aires; com Harry Flemming ele é acrescentado à sua trupe e o leva para a Europa;
com Josephine Baker, ele integra a sua orquestra numa Paris que reconhece o talento do guitarrista argentino, embora na cidade já brilhasse o guitarrista cigano Django Reinhardt.
E finalmente com Duke Ellington, que o resgata de ostracismo ao interessar-se por ele quando chega de visita a Argentina, que em 1969, tinha se esquecido de Oscar.

Até os dias de hoje, a extensão da relação entre o Alemán e Django Reinhardt são debatidas no círculo dos expoentes do jazz manouche (gipsy swing). Pujol fornece dados muito detalhados sobre essa ligação e usa as diferenças estilísticas entre o cigano e o argentino para descrever a minuciosa identidade guitarrística de Oscar Alemán: jazzístico, sim, no espírito de suas improvisações. Mas cosmopolita na capacidade de abordar os mais variados gêneros - do choro ao bolero, da milonga ao mussette - com a maior autoridade. E sobretuto, popular. E, em contraste com a velocidade de Reinhardt, gostava em atrasar a sua entrada no solo e era, acima de tudo, melodista ao invés de velocista. Um guitarrista que criava suas improvisações estimulando a seção de sopros em suas bandas favoritas, ao invés de outros guitarristas.

O relato permite a Pujol em se deter nas circunstâncias que rodearam e condicionaram o trabalho de Alemán em várias fases de sua carreira. No início, a vertigem de ser um precursor de uma guitarra jazz em que tudo estava para ser feito, mas que não terminava por impor-se, devido às limitações de volume em relação ao poder dos sopros. Mais tarde, quando começava a obter um destaque como solista na Europa, Pujol descreve que o surgimento de progresso nazismo trunca os avanços de um guitarrista que tem tudo a perder na França ocupada: é preto e toca música considerada "degenerada" pelos nazistas.

Outro momento que captura o interesse particular do autor é o retorno do guitarrista para a Argentina, onde ele chega para ser um músico popular, converter-se numa lenda nos bailes e nas piruetas com a guitarra nas costas e tornar-se numa atração estável nos anos dourados do rádio. Pujol destaca um contraste: o triunfo da música do Oscar, de raízes americanas, se dá numa Argentina peronista nacional e popular, com o reinado do folclore e tango.

Mais adiante o livro descreve como as mudanças no final dos anos 50 produzem mudanças estruturais na indústria da música (erupção do rock, primazia do disco sobre a orquestra ao vivo) que levaram a um longo período de ostracismo de Oscar. No entanto, a história vai dar ao guitarrista, já de idade e com problemas de saúde, a possibilidade de reencontar-se com seu público. É neste último período quando Pujol o vê pela primeira vez, em uma apresentação no ATC e de alguma forma começa a história deste livro, que resgata a figura de Oscar Alemán na sua dupla dimensão de artista que deixou sua marca no mundo da jazz internacional e de músico popular capaz de mover multidões para forçar o seu swing como nunca antes no país. Como nunca havia ocorrido antes.

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