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'Dois na Rede': 25 anos de Senise & Peranzzetta

O Espaço Tom Jobim tem um astral mágico. No meio da mata, instalado no antigo Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com um belo auditório de 500 lugares em madeira nobre, é uma evocação do saudoso Maestro, que costumava passar seus momentos de meditação ali perto, à sombra das árvores, respirando o oxigênio da floresta. Na noite de 16 de outubro de 2014, com a sala modificada do formato convencional palco x plateia para o mais envolvente teatro de arena, abrigava o terceiro concerto da série Jardim de Pianos e Outras Teclas.

29/05/2015 - Roberto Muggiati

Gilson Peranzzetta (piano) e Mauro Senise (saxofones, flautas) celebravam o 25º ano de parceria vitoriosa, iniciada em 1990 com o álbum Uma parte de nós, e – com a sólida experiência, somada ao seu dom de comunicação telepática – encaravam o desafio de gravar um CD ao vivo, com todos os obstáculos e surpresas que uma empreitada dessas promete.

Senise conhece e respeita o Protocolo Lester Young. O tenorista, pioneiro do estilo cool, afirmava que, para improvisar bem, o instrumentista devia levar em conta a letra da canção. (Viajava sempre com uma vitrola portátil e um punhado de discos do Sinatra.) Em "Deixa" – o clássico de Baden Powell e Vinicius de Moraes – o sax alto de Mauro escande os versos do Poetinha: “Deixa/Diz que sim pra não dizer talvez.” E também chora ao soprano em "Jura Secreta", de Sueli Costa e Abel Silva: “Só uma palavra me devora/Aquela que meu coração não diz.”

Com uma flauta baixo lírica e contida, Mauro é quase um crooner em "Canção que morre no ar", de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli: “Brinca no ar/Um resto de canção/Um rosto tão sereno/Tão quieto de paixão.” E, com o soprano, vibra no clássico de Caymmi, "Só louco": “Oh! insensato coração/Por que me fizeste sofrer?/Porque de amor para entender/ É preciso amar.” Nessa canção – uma das mais longas do CD – Peranzzetta também exibe sua arte do improviso e insere duas vezes no seu solo o tema "Invitation", de Bronislau Kaper, uma das citações favoritas do jazz. Entre os temas “convidados” estão ainda dois de Edu Lobo – "Zanzibar" e "Historia de Lily Braun" (parceria com Chico Buarque) – e o atrevido "Aqui Ó", de Toninho Horta e Fernando Brant.

Mas Gilson não é só piano. Além de arranjar os doze temas, assina cinco deles. "Paisagem Brasileira" viaja por um cenário evocativo de mestres como Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Em "Braz de Pina", homenageia o bairro onde nasceu e viveu os primeiros 25 anos. Foi uma época linda da minha vida, quando despertei para a música e para o meu ofício de músico embalado pelos saraus que minha família promovia em casa nos fins de semana.

Perguntei-lhe sobre a origem do nome do bairro, ele a desconhecia. Com minha curiosidade de jornalista fui à Wikipedia. É até uma história interessante, mas resolvi não invadir com o factual frio as fantasias faceiras do Gilson – que ele fique para sempre com a lembrança proustiana da sua Braz de Pina ...)

"Bilhete pro Guinga" homenageia o amigo violonista e compositor. "Forrozim", um chorinho pra Zé Américo (“um talentoso acordeonista e arranjador e um grande amigo”) é outro tributo, um chorobop esperto que mostra a afinidade do duo com a sintaxe do jazz moderno.

"Dois na Rede" é o gran finale em levada de frevo, uma amostra viva do virtuosismo da dupla, e destaca a afinidade de Mauro com o flautim. Comecei a tocar piccolo em 1973, no grupo do Hermeto Pascoal. Na época, eu solava aquele tema dele, Chorinho pra ele, e lembro que abri no piccolo meu primeiro show com o Hermeto, o que me marcou muito. O piccolo que Senise usa nessa gravação é chinês, comprado no Rio. Tenho três outros piccolos, todos muito bons, mas ultimamente prefiro tocar com esse chinesinho, é bem levinho e acabei me afeiçoando a ele.

Na capacidade de improvisador, Mauro Senise vai além do papel de mero executante. Musicólogos de renome, como Leonard Bernstein, postulam que o improvisador supera o interprete leitor de partitura, para se tornar um compositor instantâneo. Ouçam e reparem; aliás, esse CD foi feito para ser ouvido muitas vezes, a cada audição você experimenta novas descobertas. Os parceiros comentam:

GILSON: Foi uma noite mágica, onde tudo deu certo. Teatro lindo, público caloroso, som sensacional e a performance do duo foi excepcional. Acho que nunca tocamos tão bem, tão entrosados, como se fossemos um só.

MAURO: Foi uma noite muito inspirada, já que só tínhamos aquela chance para gravar. Uma passada só! Alguns temas eram bem complicados e havia muitos improvisos a fazer – acho que o resultado final ficou ótimo! Espontâneo e bastante criativo. Mas não se chega a esse ponto sem muita dedicação, ensaios, respeito mútuo e afinidade musical, o que existe de sobra entre mim e o Peranzza há 25 anos! Para nós, a Música é que é a grande estrela!

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