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Rudresh Mahanthappa reverencia Charlie Parker

O cenário dos talentosos instrumentistas do jazz se renova com muita rapidez e Luiz Orlando nos apresenta Rudresh Mahanthappa, que apresenta seu mais novo trabalho (Bird Calls), dedicado à arte do gênio Charlie Parker.

05/03/2015 - Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil, 14/02/2015

No último referendo anual dos críticos promovido pela Downbeat (agosto de 2014), Rudresh Mahanthappa, 43 anos, foi o terceiro mais votado entre os especialistas no saxofone alto, atrás de Kenny Garrett e Miguel Zenón, mas à frente de Tim Berne e do veteraníssimo Lee Konitz. Esse filho de imigrantes indianos, formado no Berklee College of Music (Boston) e novaiorquino desde 1998, destacou-se no planeta jazz como comparsa do pianista-compositor Vijay Iyer – da mesma idade e da mesma origem étnica – com o qual gravou três álbuns fora de série: "Blood Sutra" (Pi, 2003), "Reimagining" (Savoy, 2004) e "Raw Materials" (Pi, 2006).

Como líder, Mahanthappa consolidou o seu prestígio, sobretudo em matéria de world jazz com sotaque indiano, em dois aclamados CDs:" Apex" (Pi, 2010), ao lado do também sax alto Bunky Green – um underated septuagenário - mais Jason Moran (piano), François Moutin (baixo) e Jack De Johnette (bateria); "Gamak" (ACT, 2012), uma sessão eletro-acústica bem diferente, com o guitarrista David Fiuczynski, o fiel Moutin e Dan Weiss (bateria).

Rudresh Mahanthappa reaparece agora nas lojas virtuais com o lançamento, pelo selo alemão ACT, de um disco irresistível, intitulado "Bird Calls", gravado em agosto do ano passado.

Trata-se de uma seleção de 13 faixas, das quais a primeira (2m50) e outras quatro (entre um e dois minutos) têm o mesmo título do álbum, que é um tributo muito original a Charlie 'Bird' Parker, o genial founding father do jazz moderno.

"Bird calls #1" funciona mesmo como uma breve mas significativa ouverture para as demais peças do CD, com um fogoso diálogo entre o saxofonista-líder e o trompetista-revelação Adam O'Farrill, de apenas 20 anos, mas que é filho e neto de dois famosos músicos de Afro-Cuban jazz: Arturo e Chico O'Farrill (1921-2001). Completam o quinteto – formação típica dos grupos de Parker nos áureos tempos do bebop – o pianista Matt Mitchell, o baterista Rudy Royston e o baixista François Moutin.

O próprio Mahantappa, nas notas que escreveu para o álbum, chama a atenção para o fato de não haver nele, explicitamente, nenhum tune de Charlie Parker, mas que cada faixa é diretamente baseada numa composição ou num solo do 'Bird'. Assim, por exemplo, "On the DL"(8m) tem como fonte Donna Lee (que, por sua vez, é a versão parkeriana de Indiana) ; "Chillin'" (8m) tem parentesco com Relaxin' at Camarillo; "Sure why not?" (7m45) é inspirada em Confirmation.

O novo ás do sax alto assim fala do seu ato de devoção ao 'Bird':
“Enquanto o jazz continua a evoluir como uma arte global, é da maior relevância examinar suas fontes e forças gravitacionais. Se a música de 'Bird' tem sido tocada e gravada constantemente, é também da maior importância que sua obra seja absorvida, e que se dê nova forma e significado aos seus dons. Ou seja, imitar Charlie Parker é algo inconsequente na busca dessa forma, mas o desenvolvimento de novas perspectivas por sobre a tradição é a substância da expressão contemporânea”.

Uma intensa troca de compassos e de ideias entre o fulgurante sax de Rudresh Mahantappa e o trompete de Adam O'Farrill, aquecidos pela seção rítmica, dá o “sinal de partida” para solos vertiginosos em Chillin', a meu ver o ponto culminante de "Bird Calls".

(Esta faixa pode ser acessada e ouvida em: https://soundcloud.com/bk-music-pr/chillin-rudresh-mahanthappa).

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