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Biglione, Holanda, João Gilberto, Moura & Dias, Mandelman e Jodos

Nesse fim de janeiro apresento um pouco da grande música instrumental que anda rondando os meus ouvidos ultimamente. Biglione presta seu tributo aos violões de aço, Hamilton de Holanda "capricha" em seus solos bem acompanhado, João Gilberto ganha uma baita homenagem de craques paulistas, Fernando Moura e Ary Dias revisitam a Bahia e de novidade dois grandes cds da safra portenha do jazz: Hernán Mandelman e Ernesto Jodos.

28/01/2015 - Wilson Garzon

Victor Biglione - Violão de Aço (Eduardo Tristão Girão, Estado de Minas, 27/12/2014)

Pense nos grandes violonistas brasileiros da atualidade. Quantos usam violão com cordas de aço em vez de náilon? Não são muitos. Um deles é Victor Biglione, argentino radicado desde criança no Rio de Janeiro e dedicado há 40 anos ao instrumento. A ideia, como o título sugere, é fazer o elogio às cordas de aço por meio do repertório brasileiro, evidenciando a afinidade que, na visão de Biglione, existe há tempos na música do país. “Garoto só usava aço, o Dilermando Reis e os sambistas de antigamente também. O próprio João Gilberto chegou a usar. O instrumento ficou em segundo plano, primeiro por causa da bossa nova, quando todo mundo usava náilon, e isso se transformou em marca muito brasileira”, analisa.

Em ótima forma, Biglione passeia por 13 faixas, que vão de Senô ('Duda no frevo') a Tom Jobim ('Wave'), passando por Baden Powell ('Cai dentro', parceria com Paulo César Pinheiro), João Donato ('Amazonas', com Lysias Ênio) e Hermeto Pascoal ('São Jorge'). De Milton Nascimento ele pinçou 'Tostão' e 'Fé cega faca amolada' (com Ronaldo Bastos). Para representar sua terra natal, incluiu 'Por una cabeza', clássico de Carlos Gardel (com Alfredo Le Pera). Há só uma autoral: 'Lusco-fusco de Buenos Aires'.

No estúdio, Biglione se cercou de alguns dos melhores instrumentistas do país: os baterisas André Tandeta e Jurim Moreira, os baixistas Jorge Helder e Arthur Maia, o percussionista Marcos Suzano (que contribuiu com a faixa 'Flash', de sua autoria), o violoncelista Lui Coimbra e o flautista e saxofonista Carlos Malta. A produção é do próprio argentino, que assina quase todos os arranjos sozinho, compartilhando a tarefa com alguns dos convidados em duas faixas.

Hamilton de Holanda - Caprichos (Silvio Essinger, O Globo, 08/07/2014)

Em “Caprichos”, Hamilton de Holanda tem lá os seus momentos solo (já explorados com fineza no CD “Íntimo”, de 2007), mas ele divide boa parte do álbum com músicos que cresceram (e apareceram) junto a ele, e que formaram uma das cenas mais sólidas do instrumental brasileiro.Beleza há de sobra no encontro com o pianista André Mehmari, no “Capricho de Pixinguinha”. Já os violonistas Rogério Caetano (em “Capricho do Luperce”) e Rafael dos Anjos (no “Capricho de valsa”) remexem tradições em seus passeios com Hamilton. As impossibilidades hermetísticas de “Capricho de valsa” ficam para trás no duo com o acordeonista Bebê Kramer. E o bandolinista ainda brinca de caixinha de música como forma de abrir espaço à gaita virtuosa de Gabriel Grossi.

A visão panorâmica da música brasileira de Hamilton de Holanda se denuncia em faixas como “Capricho do retirante” (solo, que reimagina o lamento violeiro nordestino como possível blues brasileiro) e “Capricho de Raphael”, um prodígio de choro/maxixe com André Vasconcellos (contrabaixo) e Thiago da Serrinha (percussão). Com garra, mas intimista; limpo, expressivo, viril e alegre, “Caprichos” atesta o grande momento de Hamilton, aos 38 anos. E os bandolins em contraponto, no “Último capricho”, dão o gran finale para esse disco necessário.


Renato Braz, Nailor Proveta e Edson Alves - Silêncio ou Um tributo a João Gilberto (Mauro Ferreira, Blog Notas Musicais, 21/01/2015)

"Silêncio", de 2014, é de fato um tributo a João Gilberto. Registro das sessões de gravação que deram origem ao filme "Ensaio sobre o silêncio", do cineasta Zeca Ferreira, o CD promove a integração da voz de Renato Braz com os sopros de Nailor Proveta e com o violão de Edson Alves. Um dos maiores cantores da música brasileira, o paulista Renato Braz exercita a leveza - na contramão do tom habitualmente classicista de seu canto - em nome da harmonia. "Silêncio" não é um disco de Bossa Nova, embora haja muito de Bossa Nova no toque do violão de Edson Alves na condução de músicas como o samba "Louco" (Ela é o seu mundo) (Wilson Baptista e Henrique de Almeida, 1943) e o bolero "Besame mucho" (Consuelo Velásquez, 1940). A reverência a João é feita através da harmonia reinante entre o trio. Ou duo, já que o samba "Doralice" (Dorival Caymmi e Antonio Almeida, 1945) figura no disco em registro instrumental pautado pelo fino diálogo do violão de Alves com o saxofone de Proveta.

A abolerada canção italiana "Estate" (Bruno Martino e Bruno Brighetti, 1960) é o grande momento de "Silêncio". Com sons que respeitam os silêncios, e vice-versa, a gravação do trio chega a rivalizar com o antológico registro feito por João em seu álbum "Amoroso" (Warner Music, 1977). Também impressiona a maneira como o trio cai nos sambas - "Pra que discutir com madame?" (Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, 1945), "Eu sambo mesmo" (Janet de Almeida, 1946), "Bahia com H" (Denis Brean, 1947), "Eu vim da Bahia" (Gilberto Gil, 1965) - com suavidade cool digna de João. Menos óbvio quando sai do terreirão do samba, o passeio pelo repertório gravado por João inclui canções menos associadas ao inventor da bossa, casos de "Avarandado" (Caetano Veloso, 1967) - canção gravada por João em 1973 e revivida com lirismo por Braz sem alterar o tom leve mantido ao longo das 14 músicas do disco - e de "O grande amor" (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1960), exemplo de um Jobim mais classicista, depurado por João no álbum "Getz / Gilberto" (Verve Records, 1964). Enfim, "Silêncio" honra João porque o cantor e os músicos parecem unidos numa nota só, a favor da deusa música.

Fernando Moura & Ary Dias - Pros Meninos (Pedro Tinoco)

O pianista Fernando Moura e o percussionista Ary Dias adotaram uma formação pouco usual. O primeiro trabalho realizado, "CosmeDamião" de 2012 foi uma fina diversão para ouvidos atentos, disco que inspirou uma tour pelo Brasil, com direito a uma escapada para Paris. Agora, em 2014, a parceria segue firme com um novo cd: "Pros meninos". Nas doze faixas que compõem o Cd, Moura & Dias assinam juntos quatro composições, duas a mais em relação ao primeiro trabalho.

A faixa-título, gravada na Bahia e inspirada pela bela melodia típica da região, foi reforçada por um empolgante naipe de sopro de 18 músicos. Zé Nogueira (sax-soprano) flutua solo sobre o tema afro "Revolta dos Bongôs", também da dupla. Serginho Trombone dá o tom de gafieira em "Massaramduba". "Outros meninos", composição de Moraes Moreira e Abel Silva, gravada pelo primeiro em 1987, volta à tona em delicada versão instrumental pontuada pela guitarra de Davi Moraes. O saxofonista Mauro Senise sopra imagens em "Assim na Terra como no Céu" de Moura e Armandinho esbanja técnica com a guitarra baiana em "canto de Ossanha", de Baden e Vinícius.

Hernán Mandelman - Reflexiones en Verano

O baterista e compositor Hernán Mandelman se preparou muito bem para as gravações de "Reflexiones en verano". Depois de lançar "Amistad" (BlueArt, 2008, em formato de quarteto) e "Detrás de esa puerta" (Sofá Records, 2011, em formato de quinteto), Mandelman para o novo Cd contou com as participações de Sebastián de Urquiza (contrabaixo), Francisco Lo Vuolo (piano), Juan Cruz de Urquiza (trompete), Natalio Sued (sax-tenor) e Rodrigo Domínguez (sax-alto). Ou seja, um sexteto. As sete composições que integram o disco são de autoria de Mandelman que, com o correr dos anos, vem demonstrando um importante crescimento autoral e interpretativo, assim como também se consolidou como arranjador e líder de banda.

"Reflexiones en verano", gravado integralmente no dia 4 de março de 2014, aprofunda o caminho apresentado em "Detrás de esa puerta". Tem algumas diferenças: neste seu trabalho, Mandelman compôs a totalidade das músicas do álbum, acrescentou o trompete de Juan Cruz de Urquiza e substituiu Paula Shocron ao piano por Lo Vuolo y Ezequiel Dutil no contrabajo por Sebastián de Urquiza. Dentro de um nível altíssimo nas interpretações, há notáveis momentos em "Blues Aires" e "En vena". Depois de ouví-lo por inteiro, para mim fica claro que Mandelman optou por um som grupal e balanceado em detrimento de algum brilho pessoal.

Ernesto Jodos - Actividades Constructivas

O pianista e compositor Ernesto Jodos, uma das maiores e inevitáveis referencias quando se fala do movimento jazzístico argentino, nos apresenta um disco-solo "Actividades constructivas", que foi grabado numa só jornada, esta ocorrida no dia 9 de agosto de 2014. Para este seu segundo álbum de solo piano registrado para o selo rosarino 'Blue Art' (o anterior foi "Solo", uma década atrás), Jodos decidiu interpretar material proprio original onde, é claro, não está ausente a improvisação.

As onze peças que compões esse álbum resultam num excepcional mostruário das virtudes de Jodos, e elas estão entrelaçadas de uma maneira tão homogênea que se podería pensar de 'Actividades constructivas' como uma obra integral de aproximadamente 48 minutos, dividida em 11 movimentos. Depois de várias audições poderiam ser citadas muitas influências ou referências (e não só provenientes do jazz); mas Jodos lhes dá um marco e uma construção tão pessoal que permite ratificar uma vez mais que, desde o surgimento de seu "Sexteto" em 2000 e especialmente quando nos apresentou o trio "Cambio de Celda" um ano depois, o pianista Jodos é uma voz distinta, pessoal e insubstituível dentro do panorama musical argentino no presente milênio.

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